O juiz lê o parecer técnico?

E por que isso começa com um trailer.

Ao longo de anos escrevendo laudos e pareceres técnicos, uma pergunta sempre me acompanhou: o juiz realmente vai ler tudo isso? Durante muito tempo, confesso, eu evitava pensar demais nisso, era a única forma de não desanimar diante de horas de estudo e construção de raciocínio. Até perceber que talvez a pergunta estivesse errada.

Não é o juiz que tem o dever de se interessar.

​É o assistente técnico que tem o dever de despertar o interesse. Uma verdadeira inversão do ônus da atenção.

O magistrado decide entre múltiplos processos, prazos e documentos extensos. Sua leitura é funcional: ele procura o que ajuda a decidir. Nesse cenário surge o “parecer invisível”, tecnicamente correto, presente nos autos, mas sem participar de fato da formação do convencimento. Não por descaso, mas porque o texto não foi construído para a realidade concreta da decisão judicial.

É por isso que todo parecer precisa começar como um bom trailer: não para contar tudo, mas para mostrar por que aquilo merece atenção. Logo no início, é preciso deixar claros os pontos técnicos centrais, qual é o problema decisivo, onde está o núcleo da prova e qual lógica será demonstrada. Isso organiza a mente do julgador e convida à leitura.

O juiz já sabe que o assistente representa uma parte. A conclusão, por si só, raramente é surpresa. E quando o final é previsível, só continuamos envolvidos se o caminho até ele for convincente. O problema nunca foi o desfecho. É quando o texto não mostra, de forma progressiva, por que ele é tecnicamente inevitável.

Depois dessa porta de entrada, vêm os argumentos: dados, análises e conexões entre achados e conclusões. Muitos pareceres são profundos e corretos, mas densos, pouco hierarquizados e escritos em uma linguagem que afasta quem precisa decidir. A ciência está lá mas, para o leitor, a experiência pode ser parecida com assistir a um ótimo filme… em língua estrangeira, sem legenda.

Parecer técnico não é depósito de informação. É construção de raciocínio. Quando técnica e comunicação caminham juntas, o texto deixa de ser apenas correto e passa a ser útil.

No fim, a questão não é se o juiz lê ou não lê. É se o parecer foi escrito apenas para existir nos autos ou para realmente ajudar alguém a decidir. Quando bem estruturado, com argumentos claros desde o início, o laudo não se perde no processo: ele fica na memória, orienta a compreensão do caso, pode influenciar a decisão e cumpre seu papel maior, informar tecnicamente na busca pela verdade.

E, no fundo, é para isso que a gente escreve.

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